Beat 1979


Capítulo 4

Os últimos dois meses de 2004 estavam demorando demais pra passar. Era uma vida de cão estudar pra passar o vestibular, uma pressão enorme na minha cabeça pra escolher o que queria cursar realmente na universidade, pra onde iria e quem eu deveria ser. Não era certo aquele momento para largar tudo relacionado à infância e pular no caminhão da juventude adulta responsável - então eu fazia meus afazeres mal e porcamente, sem nunca pensar em um futuro mais distante do que o próximo fim de semana.

E o tempo do colégio passou. Eu fiz muitas merdas nesses últimos tempos de aula porque cagava imensidões para as matérias e para todas as coisas, em uma apatia insuperável e o colégio também cagava imensidões de igual tamanho para mim. Eles queriam apenas o dinheiro das últimas matrículas e só: não investiam no meu ingresso da faculdade porque eu me tornara medíocre nesse último ano e eles haviam perdido a esperança de qualquer sucesso.

Enfim, passei os últimos três meses aloprando tudo que podia no colégio, especialmente matando todas as aulas possíveis na sala do grêmio. Essa história do grêmio era, por si só, uma grande MERDA. Eu havia ingressado no grêmio estudantil "pela janela" e ascendi posições rapidamente, após a expulsão de alguns membros. A sede gremial era uma salinha no meio do pátio de 2.5 m por 2.5 m, fechada à chave, e com persianas tampando a visão da janela. Eu havia subido do degrau mais baixo - o de membra honorária - até um dos melhores cargos: Ministra dos Assuntos Pessoais. Era um cargo com nome e responsabilidade inventados - eu não tinha que fazer nada, apenas sentar na sala do grêmio pela manhã e abrir a porta para todos que desejassem matar uma aula por lá. Eu tinha minha própria chave: o presidente, Sarraff, havia me dado uma cópia porque confiava em mim e frequentemente deixava o caixa monetário dos eventos na minha mão. Não deixava na mão do Bico, o vice-presidente, por medo do mesmo beber todo o dinheiro em cachaça.

Esses tempos do grêmio foram de muita fartura: constantemente sobrava verba de alguma festa do colégio e ia para o caixa do grêmio, para ser guardado para algum outro evento, como complemento. Mas o Sarraff queria era ver o grêmio futuro pelas costas e dizia: "É o nosso último ano aqui e essa merda de grêmio nunca fez nada por nós. Amiga Flavs, seja corrupta. Estou entediado e é hora do intervalo! Vamos sair pra almoçar... O grêmio paga!". E íamos nós todos na hora do almoço do colégio almoçar com o dinheiro do grêmio, beber cerveja e saquê no restaurante chinês da esquina. Nunca tive que desembolsar nenhum centavo.

E a instituição do grêmio era também um passaporte livre de saída do colégio: inventávamos constantemente "necessidades gremiais" e saíamos de ponto batido bem cedo pela manhã e matávamos aula pelo centro da cidade ou na casa de alguém. Também usávamos "reuniões" imaginárias como desculpa pra passar horas e horas espalhados por aqueles 6.25 metros quadrados de chão da salinha, em uma grande roda de amigos, conversando, fumando cigarros de palha, bebendo cachaça caseira ou vodca quente, ouvindo música ou simplesmente dormindo, ou em silêncio confortável. Às vezes até liberava a chave para algum casal, enquanto assistia a alguma aula, pra que rolasse uma sacanagem na sala do grêmio, mas isso era mais raro.

Às vezes a gente desatava a escrever na Ata Oficial, o livrinho preto para oficialização de regras e anúncios e finanças. Mas nunca mantínhamos registro de nada. O dinheiro que entrava, saía quase todo em comida e álcool e outros prazeres, mas é importante frisar que nunca nada era desviado para assunto pessoal: todo dinheiro gasto "fora dos registros" era gasto com todos os amigos e membros, sem exceção. Era uma forma estranha de lealdade e cumplicidade em meio à lama da corrupção - e eu estava grata e orgulhosa disso. Enfim, escrevíamos apenas o que nos fazia rir. Em linguagem mais formal possível, sentamos uma tarde e escrevemos algumas "regras" como:

"Os membros do grêmio do colégio proíbem terminantemente a entrada da membra Monalisa em sua sede pois a mesma, após coletada uma série de provas carnais, foi declarada uma puta imoral e suja, que performa favores sexuais nos recintos gremiais." ou

"Está banida a entrada e/ou permanência do ex-membro Lucas D. B. D no grêmio pois o mesmo é um amante da sodomia e da prática homossexual do fio-terra. Não permitimos tais atitudes imorais no nosso respeitoso recinto e, por isso, é indesejada a presença de tal baixa estirpe e imoral pessoa entre nós."

Eu mesma fui expulsa e banida, porém continuei fiel ao meu cargo, rindo demais. O artigo da minha expulsão dizia: "A amiga Flávia, atualmente ocupando o cargo de Ministra é, a partir de hoje, deposta de sua função e banida por tempo indefinido do grêmio pois é viciada em fumar substâncias tóxicas ilegais e legais e consumir outros entorpecentes em ambiente gremial."

E depois de todas essas palhaçadas, assinávamos oficialmente.

Passei muitas, muitas tardes lá dentro. Todas ótimas e memoráveis.

(Agora, à pouco tempo atrás, voltei ao colégio em uma visita com o Bizarro, à tardinha, o colégio em época de férias, aberto apenas para matrículas. Conversamos com a nossa antiga amiga ¿ a grande Solange, que sempre nos ajudava a matar aula na secretaria, ficando de bate papo e não fazendo seu trabalho - e me entristeci ao saber que o novo grêmio era limpo e eficiente e havia se transferido para uma ampla sala, e nossa saudosa salinha havia sido transformada em um tristonho e bege refeitório, com um microondas e uma bancada sem-graça e sem o ar condicionado nem o som.)

Juntando tudo isso, mais umas bebedeiras e insolências, fui suspensa por 3 dias. Foi ótimo. Depois disso, aos trancos e barrancos, passei de ano direto e finalizei o ano. O dia mais feliz da minha vida foi o dia em que acabou-se tudo, o dia em que dormi tarde e acordei tarde e nada mais importava. Faltavam ainda as últimas provas da universidade mas eu não ligava pra isso. O último ato de libertação seria a festa - que eu acabaria entrando sem pagar - da minha formatura.

No exato meio de Dezembro rolaria a festa. Durante o ano letivo havia rolado um plano de financiamento para o pacote de formatura. Algo em torno de 200 reais por três festas durante o ano, com direito a comida e bebida liberada, festas temáticas à fantasia e a festa final, da formatura. Meu pais estava disposto a pagar mas eu não tinha interesse nenhum em socializar com meus colegas de colégio ou de fazer novas amizades fora dele: tinha o meu mundinho no grupo dos esquisitos, era conhecida mas não amada e tudo aquilo era o que me bastava. Decidi não pagar. Porém, cada pagante, para essa festa final tinha direito a 5 convites acompanhantes. Sobraram muitos convites e, no dia da festa, o desespero tomou conta e convites foram vendidos a 1 real. Eu recebi o meu do Rafael, de graça e fui.

Arranjei um vestido formal e uma carona, com Mari e seus pais (nunca vi ninguém levar os pais para uma festa de álcool, mas ela levou) e Livs, com quem eu havia brigado na época do primário a muito muito tempo atrás e agora lentamente nos reconciliávamos. Fui com elas de carro e voltaria de carro e não levei nada além do meu corpo sedento e minha carteira de identidade.

Andava sem dinheiro naquela época e uma festa gratuita era um presente dos deuses.
Chegamos lá, no conforto do carro e tudo e sentamos em uma mesa. Professores, meia dúzia de pais, educadores e toda aquela gente engomada de vestido e salto alto. Eu estava tropeçando nos meus saltos, uma menina criada na base do pé descalço, e estranha como um troço no meu vestido.

Então, partiu o bonde do sorriso amarelo e da falsidade... Depois de milhares de "Nossa, o tempo passou tão rápido!" e "Vou sentir tantas saudades!" e "Vamos marcar de nos encontrar depois, por favor, não perca o contato!" (quando na verdade você está repetindo "Adeus, víboras!" dentro da sua cabeça) eu fui ao assunto que realmente era do meu interesse: as bandejas de martini. Logo Mariana havia se desgarrado dos pais e entrado na competição comigo e Lívia por quem bebia mais e mais rápido.

A festa foi se arrastando lentamente com a música horrível e os martinis passando muito lentamente. Queria logo o barato do álcool pra esquecer os colegas colegiais mocorongos que julgavam silenciosamente com os olhos, esquecer todo o tempo do colégio. Me juntei aos meus amigos mais próximos e perdi as garotinhas da minha sala. Logo, estávamos na esbórnia. Passava de um lado para o outro um charuto babado e a gente foi fumando e fotografando, martini rose e champagne.

Mas a melhor parte ainda estava por vir: as benditas pulseiras vips para os pagantes. Eu não era pagante porra nenhuma, mas era formanda e estava lá dentro então fui na cara de pau e descolei uma. Esse passe paradisíaco dava acesso ao subsolo onde um bar tender se preparava, chacoalhando drinks de um lado para o outro. O barulho do gelo na coqueteleira agitando-se nervosamente parecia o sino da porta do paraíso e minha boca encheu-se de saliva, meus olhos cresceram ¿ minhas vísceras pulsaram e eu me aproximei.

Sem charme e sem pudor perguntei o que o bar tender preparava. Ele, me tirando por garota nova, me disse que era Sex on The Beach de diversos sabores. Como era Open Bar, na loucura, mandei ele servir um de cada sabor, ao longo que eu fosse acabando o outro e que não parasse de fluir. Ele não disse nada, só pegou a Vodca e foi servindo.

Nisso a galera começou a descer. Logo estávamos todos os "esquisitos" lá embaixo. Era um ambiente agradável: a luz negra fornecendo a claridade suficiente para beber, o som da risada dos amigos abafando a música tenebrosa que o DJ babaca tocava para a massa acéfala. Desci dois Sexy On The Beach em meia hora, pedi um Screwdriver e, de copo em punho, subi pro mundo "normal" novamente, pra ver como estava Lívia.

Encontrei na pista de dança, abraçada com um gordo suado. Dançaram juntos e eu fui ficando enojada, na mistura de birita e estômago vazio, manchas de suor embaixo do braço do garoto e aquela fedentina de fumaça de gelo seco e meu próprio suor, que saía em baldes. Logo os lábios dos dois se colaram em um beijo estranho e o corpo magro de Lívia foi engolfado pela bola de banha e foi um mar de línguas e suores e braços.

Fui ao banheiro. Como era de se esperar, já tinham vomitado em um dos cubículos e duas ou três peruas ajeitavam a maquiagem, fofocando sobre pegarem um ou outro. Uma delas tentava passar o batom mas sem sucesso, se olhava no espelho com olhos vidrados, provavelmente errando os lábios por estar muito bebum e vendo duas de si própria.

Saí do banheiro abafado e fui cambaleando. Ainda não estava trocando as pernas, mas estava sentindo a tontura macia da bebedeira atingir os meus sentido. Desci novamente as escadas para o pequeno paraíso particular das bebidas, o lugar aonde eu realmente queria estar, junto dos amigos. Olhei a cara cretina do garçom e pedi uma Caipirinha, que esperei ficar pronta salivando. O cheiro do limão, o barulho do gelo no copo, aquilo pra mim era como sinos angelicais. Drink in hand, andei mais para perto da saída e passei meu braço em volta do amigo bola, na roda de amigos.

Achei um momento bonito, uma visão diferente. Tive uma epifania: todos os amigos estavam lá, provavelmente no nosso último dia de convivência diária, em trajes de gala, ternos, gravatas, vestidos, enchendo a cara e rindo, rindo muito e eu percebi que sentiria saudades. Piegas sim, mas involuntariamente meus olhos se encheram de lágrimas e eu pensei "Merda. Merda de besteiras sentimentais"! E pra abafar o sentimentalismo, matei o resto da caipirinha em uma talagada amarga e me inteirei do assunto, largando as divagações bobas.

Obviamente, ao voltar ao mundo e ouvir a conversa, os amigos estavam mutuamente se ofendendo. Chamaram o Bola de viado, ele revidou, bate-boca infantil e hilário. A gente adorava encher o saco do Bola pela sua sexualidade duvidosa: ele mandava sinais dúbios, desmunhecava, falava mole mas catava mulher e comia vagabundas, mas nada era o suficiente pra acalmar a raiva cega e preconceituosa dos acéfalos do colégio nem abrandar as piadas ofensivas e mascaradas dos amigos.

(Bola, no fim das contas, depois de um ano acabado o colégio, começou a sair com amigos alternativos para baladas GLS, primeiro pra dançar, depois pra beijar garotas, depois beijar caras e experimentar do sexo anal. Assumiu a homossexualidade para os amigos e a mãe, mas não pro pai e pro irmão, e continua "levando amigos pra estudar no seu quarto", na encolha, com certeza frequência até hoje.)

Então Bola deu um faniquito bem bicha e jogou o conteúdo do seu copo no Olavo, do outro lado da roda. O Olavo se emputeceu e jogou o copo com gelo na nossa direção, eu desviei prum lado, me tacando em cima do Sarraf, Bola caindo pro outro lado, na direção do Bico e o copo voando, como um projétil certeiro, em um engravatado aleatório no fundo. PLAAAAAAAAAF. Lá estava o cara, todo molhado, pingando e fedendo a Cuba Libre. O cara limpou a cara melada e partiu pra cima, sobrando o segurança pra apartar. Eu me encontrava no meu canto, rindo, debruçada no Sarraf.

O segurança era um crioulo 2x2 metros e quis botar todo mundo pra fora, com o meladinho reclamando e apontando dedos na cara de geral. Eu olhei bem pra cara dele e cutuquei o segurança, e falei: "Oi, essa área não é só para os formandos? Eu nunca vi esse cara, acho que ele não é aluno" e sorri meu sorriso mais bebum e o molhado me olhou com olhar de ódio, ele e os amigos sendo "cordialmente acompanhados" até o olho da rua. Eu só continuei bebum, de braço dado com os amigos, rindo da escrotice de tudo aquilo.

Sendo a única menina, fechamos o pacto da nossa amizade com um selinho. No fim das coisas, saí no prejuízo e levei uma mordida no músculo do pescoço que doeu pra cacete e ficou roxa no dia seguinte. (Continua?)


Capítulo 3

Agora o tempo passava bem mais rápido do que eu esperava que passasse. Era fim de ano e o colégio ia se desdobrando em últimas aulas, últimos dias e uma vontade imensa de quebrar finalmente a linha entre a minha adolescência e iniciar minha vida adulta. Estava convencida, obviamente, que na faculdade a vida seria diferente e as pessoas seriam mais interessantes, afinal, haveria um curso em comum entre todos nós e um interesse mútuo nas matérias cursadas.

(Por fim, descobriria que estava completamente certa e ficaria feliz por ter adentrado a faculdade, - quase um ano depois de todos, mas ainda assim adentrado - e acordado do terrível pesadelo da infância/juventude)

Pois bem. Entre os dias comerciais e as tardes ociosas eu as vezes empacotava uma mochilinha de bagulhos e ia pra casa do Johnny, fazer música. A música, em si, deveria estar entre aspas visto que, entre nós dois era inexistente qualquer aptidão musical. Simplesmente ele tirava do case sua Fender Stratocaster vermelha e plugava na caixinha de guitarra, no mínimo quarto dele e nós perdíamos tardes compondo e nunca anotando música nenhuma, em sessões Jam desafinadas (eu cantava, mesmo incapaz de ao menos cantarolar uma canção infantil) e eu escrevi letras na minha cabeça, e depois as desfazia, e mudava e nunca lembrava de nada.

Naquela época eu tinha meus ouvidos colados nos discos dos The Smiths, gastando cada um dos meus trocados contados em discos de vinil e cds, importações. Não me arrependo do dinheiro gasto e escuto até hoje Smiths com carinho. Me ressoa na cabeça uma citação, um pedacinho de letra que acho válido citar, dos próprios Smiths: ¿Don't forget the songs that made you cry, and the songs that saved your life...¿. Pois é, era essa a soundtrack do momento, as canções que me faziam chorar e que, diversas vezes, salvaram minha vida.

Enfim, entre esses pequenos ensaios de guitarra-voz e pizza, saía as vezes pra beber e dançar a noite com os amigos. Uma dessas noites resolvemos eu e Johnny marcar com a irmãzinha do Charles, a Marcy pra uma saída pra boate próxima. Marcy agora nunca podia sair pois estava sempre atolada entre a faculdade e o novo emprego no aeroporto que ela tinha arranjando. Não entendíamos como ela preferia privar sua liberdade para trabalhar em um trabalho cansativo e desgostoso, sem prospecto de crescimento financeiro, só pra ganhar um salário que ela não necessitava. Mas agora entendo melhor a importância do dinheiro e fico feliz de ela ter trocado o ócio na frente do computador e sair de casa pra batalhar uma grana que, de uma maneira ou de outra, satisfaz os desejos de comprar suas próprias coisas e tudo mais, independentemente.

Marcy levaria o seu namorado, Bruno: eles namoravam já faziam uns dois anos e se gostavam, mas não se sincronizavam com muita frequência. Acho que Marcy tinha desejos de casar e ficar juntos sempre que possível e o Bruno, como um jovem homem, obviamente, queria curtir o momento e ficar junto dela, mas também se divertir entre amigos para ter conversas e atividades tipicamente masculinas, logo, se desentendiam o tempo todo e Marcy chorava no ombro virtual de amigos pela internet, visto que não tinha tempo nem de sentar e tomar um café e desabafar seus problemas e, muitas vezes, sobrava pra Charles ouvir e tentar catar os pedaços da irmã e isso o emputecia e compadecia, ao mesmo tempo, às vezes.

Enfim, dessa vez o casal estava acertado e nas nuvens. Bruno agora estava partindo pra academia militar em pouco tempo e acho que o medo da separação os fez se unir. Seja qual fosse o enjoativo motivo amoroso, não importava. O que importava mesmo era o fato da noite nos esperar pra uma saída de bebida e dança, entre amigos.

Porém, surgiu algo mais. No mesmo dia recebi um telefonema do amigo Bola, do colégio, contando a excelente notícia de que seus pais haviam viajado e que a casa agora estava livre, vazia, para chamarmos os amigos para uma reunião merecida, de semi fim-de-ano. Ele ligara para o Bico, o Felipe e todos os outros e não sabia quem viria nem o que iria rolar. Enfim, marcou umas duas horas antes da hora marcada da boite, na casa dele que era ali do lado do local.

Chamei Johnny e ele concordou. Colocou uma camisa nova, meio hipponga, que ele havia comprado na feira da Saeñs Peña, na barraca do hippie maluco e eu prendi os cabelos e me arrumei um pouquinho melhor e fomos.

A casa do Bola não era muito grande, mas suficientemente confortável para todos os convidados. Chegamos e não tinha ninguém lá, só duas garrafas de Vodca e uma garrafa safada de cachaça mineira que ele havia comprado numa viagem que fizemos pelo colégio, cuja garrafa de quase um litro havia custado apenas 4 reais. Era uma garrafa transparente, parecida com uma garrafa de Dreher, cujo rótulo era uma papel colado, escrito à mão. Dizia: ¿Cachaça de Minas¿ e nada mais. A birita era amarela, envelhecida e tinha cheiro altamente alcoólico.

Os amigos Bico e Felipe chegaram logo. Fomos pra cozinha e começamos os drinks. Na verdade, eram grandes doses de vodca com gelo, qualquer tipo de suco e qualquer outra merda. Abrimos o armário de bebidas do pai do Bola e resgatamos um martini e um gin, mas não tinha nada de misturar, então fomos descendo à seco qualquer merda que houvesse. Tomei uma dose de tudo e a cachaça foi por último, queimando o esôfago ¿ era uma cachaça terrível, clandestina e amarga.

Logo logo estávamos bêbados. Tinha mais gente por vir ainda, mas esses só chegariam mais tarde. Olhei pra cara do Johnny e ele estava todo derretido. Bêbado, dava pra ver na cara: seus olhos estavam apertados e ele estava vermelho, inchado, suando. Me olhei no espelho do banheiro e não estava muito melhor: o lápis de olho havia derretido e agora estava borrado em grandes manchas, minhas pupilas estavam mínimas fazendo dos meus olhos dois globos castanhos, vidrados. Eu estava tonta e fui pro quarto, tonteando. Os amigos zombaram do meu estado, como sempre, e me cutucaram e me deram mais bebida.

Fomos pro quarto dos pais do Bola. A cama de casal era macia, e os lençóis estavam desfeitos. Foi um alívio deitar ali de sapato e tudo mesmo, foda-se, e relaxar e deixar o álcool tintilar e adormecer os seus sentidos e membros. Ligamos a televisão e não havia dúvida de canal: Playboy Channel, e outros canais com pornôs brabos. Não sei porque, mas é quase um ritual antropológico de festa juvenil em apartamento que, quando há filme pornô, este deve ser assistido. Se não houver, ele deve ser providenciado.

(Um adendo: acho que o pornô, no fim das contas sempre funciona bem em uma festa de álcool. Pense bem: os convidados estão bêbados e logo incapacitados de acompanhar uma trama de roteiro de maneira coerente ou ler legendas com clareza ¿ alguns bêbados tem visão dupla. E também bêbados ficam desinibidos e mais propensos a fazer merda e se pegar entre si (homens e mulheres, homens e homens e outras combinações) e todo mundo adora sexo: seja na televisão, seja uma sacanagem amiga ao vivo e à cores.)

Ficamos vendo a pior estirpe de filmes: um de penetração dupla, um boquete e outros que não lembro bem. Não estava particularmente interessada, afinal, todos ali eram meus amigos e eu não saio na caçada romântica entre amigos. O amigo Bola, naquela época se dizia apaixonado por mim (e hétero) o que tempos depois descobrimos que era mentira: ele era homossexual no armário. Acho que, refletindo melhor agora, sempre soubemos: ele mostrava sinais claros de que era gay e nós escolhíamos não ver.

No íntimo, sabia que Bola não representava perigo e deixei ele se deitar do meu lado na cama e acariciar de leve minhas costas. Nunca é ruim deixar acariciar-se inocentemente por um amigo, ainda mais bêbado, é muito reconfortante. Os amigos bêbados deveriam sempre liberar suas inibições e procurar o contato de outro próximo, deixando para trás regras arcaicas da sociedade que inibem uma amizade ¿de pele¿.

Mas isso não vem ao caso. O meu cérebro estava imerso em álcool naquele momento e eu não me lembro com precisão por quanto tempo ficamos deitados todos, largados e derretidos no colchão e nas poltronas assistindo sabe-se quantos filmes pornôs. As bebidas estavam todas quentes e as nossas bocas, secas, então resolvemos sair e descer pra um boteco próximo e tomar cerveja gelada, refrescante e relaxante.

Fomos. Quando sentei na mesa do bar, olhei pro Johnny e pro relógio. Estávamos ambos atrasados já quase uma hora pro nosso encontro com Marcy e Bruno. Johnny não ligou e afundamos nos bancos do bar, que era escuro e todo de madeira de mogno, simulando um navio. As luzes eram baixas e o ambiente era confortável. Definitivamente gosto de beber em bares escuros: as pessoas ficam mais bonitas e eu mesmo me sinto melhor e meus olhos ficam ajustados à cortina de fumaça e o mundo parece girar com menos velocidade, reduzindo o enjôo. Tomamos Antartica Original por uma hora mais, atrasando mais uma hora o encontro na boite.

Nisso, resolvi que era abuso, duas horas e meia de atraso e arrastei Johnny pra boite. Prometi aos meninos que voltaríamos depois, que a noite era criança e cambaleamos bêbados pra fora do bar eu e Johnny e andamos umas duas ruas ao encontro de Marcy e Bruno. Encontramos os dois sentados, impacientes, bebericando Chopes e comendo pizza. Tomamos esporro mas fomos perdoados porque bêbados realmente não tem culpa de não controlarem bem os seus relógios.

(O relógio interno de um bêbado arrasta-se pelas horas, em um drunken haze e não acompanha nunca o horário normal do mundo. Por isso um bêbado pode passar dois, três dias bebendo fora de casa e voltar pra casa e tomar esporro sem saber, achando que passaram-se apenas 6, 7 horas.)

Subimos para a boite: tocava a música do momento, eletrônica e outras pops, remixes. Dançamos loucamente e Marcy e Bruno se beijavam apaixonadamente, felizes e trocavam longos sorrisos. Fiquei feliz de vê-los assim, felizes, quando ultimamente só ouvia histórias de brigas. Bruno tomou seu terceiro chopp, e eu fui ao bar e paguei por uma Cuba Libre. Só faltava rum pra completar aquela noite e aquele era meu último dinheiro. Johnny tomou mais uma cerveja com suas notas contadas, amassadas e nós dançamos, duros e robóticos. Mas ao menos estávamos nos divertindo.

Uma banda subiu no palco no meio do lugar e as luzes estroboscópicas se apagaram e deram lugar à luzes de palco. Eles tocaram os melhore hits nacionais, covers só. Pulamos e dançamos, até de certa forma felizes por podemos cantar na nossa própria língua uns poucos pop-rock ao invez da barulheira enlatada internacional que até pouco massacrava e balançava meu cérebro inebriado.

Mas a noite lá em cima foi curta. Já se passava um bocado da madrugada e a banda parou par ao intervalo e eu resolvi descer. Bruno e Marcy ficaram, na privacidade merecida: um casal na verdade gosta da companhia dos amigos mas sempre agradece o tempo à sós, para criar o romance. Eu e Johnny re-encontramos os amigos no bar e voltamos à casa do Bola. Monalisa havia chegado lá e estava toda emperequetada.

(Monalisa tinha realmente uma cara de Gioconda e estudara comigo no colégio, na minha sala. Eu gostava dela pois ela era sempre simpática e cordial, porém não éramos amigas. Eu a zoava como o resto dos amigos o fato de ela ser perdidamente apaixonada pelo Felipe e já ter passado na mão de todos os meninos, só por uns amassos.)

Enfim, o pobre Johnny, na sua confusão bêbada achou Mona linda e me sussurrou que queria pegá-la. Eu ri da cara dele e falei que ela estava acompanhada: naquela época ela estava envolvida com o Felipe numa relação errônea e disfuncional: Felipe obviamente usava do corpo e da boa vontade de Mona, enquanto ela era visivelmente apaixonada por ele. Continuaram assim por um bom tempo.

(Ri mais ainda da cara de Johnny quando, no dia seguinte, ele viu sóbrio fotos da cara dela.)

Já eram quase duas da manhã. Estávamos todos shitfaced drunk. Sentamos na cozinha pra uma conversa e os outros se prepararam pra sair: iam esticar a noite em Copacabana, em alguma boite upclass. Eu e Johnny nos resignamos a nossa falta de dinheiro e decidimos ir pra casa. Sem condições de andar, Johnny ligou pro pai e implorou por uma carona pra nós.

Johnny me pediu, com toda sua delicadeza bêbada, que eu não desse um pio além de "Boa Noite" para os pais dele pra não dar sinais de nossa bebedeira intensa. Concordei.

Entramos no carro e eu dei boa noite cordial aos tios e Johnny também. Só que, na verdade, não estávamos enganando ninguém: ambos suados, descabelados e derretidos. Johnny então, quebrando a própria promessa, desatou a falar sobre os seus sapatos.

"Puta merda, essas porras de sapatos, apertados. Não devia ter vindo com essa merda, puta que pariu... ahhhhh", ele suspirou longamente, retomando o fôlego bêbado, passando a palma da mão aberta pela testa suada, afastando a franja colada pela transpiração. "essa merda de par de sapatos. ai."

Eu olhei pra cara dele, e segurei o riso. Olhei pra cara da mãe dele, no banco da frente pelo espelho retrovisor e vi a cara dela de desaprovação e não achei mais graça de nada. Fui calada o resto do percurso, enquanto Johnny falava e falava sobre qualquer merda aleatória, doido de cachaça demais.

Me deixaram na porta de casa. Me despedi educadamente, economizando gestos. Desci do carro e andei em direção ao portão, me segurando. Estava quase tudo perfeitamente completo, quase lá, mas tão perto mas tão longe: tropecei nos meus próprios pés e me desequilibrei. Haha. Olhei de volta pro carro e os pais dele balançavam a cabeça, de um lado para o outro, em clara desaprovação. Johnny me olhou fundo nos olhos e seu olhar me dizia:

"Deixa. Agora fodeu..."



Capítulo 2

Alguns bons meses se passaram desde a última aventura entre amigos. Passaram na calmaria normal de um ano letivo escolar, entre pequenas saídas de fim de semanas, almoços tranquilos em restaurantes chineses e reuniões na mesa de jantar de casa, tomando cervejas escondido dos nossos pais.

Chegamos em outubro e eu havia sido mudada de turma no colégio devido à queda de rendimento. A verdade é que eu havia meio que me auto-sabotado: a turma dos alunos especiais era chata e mentalmente desestimulante - professores vomitavam matéria e os bitolados copiavam todas as vírgulas, nunca conversando, nunca criando. Eu aproveitei esse tempo lendo bons livros como "Dublinenses" de James Joyce, "O amante" de Marguerite Duras, entre outros. Porém, essa inteligência literária é inaplicável à matemática e à física e, apesar de notas acima da média normal, eu estava abaixo do "rendimento exemplar" e eu fui mandada para turma 3, a pior turma em matéria de comportamento.

Nessa nova turma, reencontrei o meu amigo Bizarro e outros e acabei por conhecer um grupo que me acompanharia em bebedeiras célebres e outras presepadas, um grupo de meninos, outsiders no nosso ambiente de colégio elitista. O acontecimento célebre a ser descrito em breve foi uma festa de comemoração de aniversário de um deles: um menino franzino, muito branco, longos cabelos lisos e feições femininas ¿ apelidado Harry pois, em tempos passados, era meio gordo e mantinha os cabelos curtos, em corte asa-delta, e isso lembrava as pessoas da face do Harry Potter.

Enfim, ele era um dos caras mais fantásticos que eu jamais havia conhecido. E era perdido no mundo, desencanado, beberrão e libertino. Nunca ia à aula, e quando ia, passava todos os tempos dormindo na carteira. Quando era impedido de dormir pelos professores, desenhava e fazia esculturas, tudo com muito talento artístico e dando um gigante foda-se para a autoridade dos professores. Quando tomavam seus papéis de desenhos e outros materiais, fingia doença e telefonava pra casa e pedia pra ir embora. Era liberado pela mãe e passava o dia dormindo, até a saída da mãe à tarde e fazia pequenas festinhas. Ele era um grande conquistador de garotas (e aposto que caras também). Pela sua aparência não diria que ele era grandes coisas (diria até que era um cara meio estranho, afeminado) mas, após ouvir e presenciar diversas histórias, percebi que ele era o pica-doce da área...

Quase todas as tardes ele levava menininhas, pequenas devassas para sua casa e organizava surubas, sem pudor, subornava o irmão pra ter a casa limpa e, muitas vezes, chamava os amigos pra beber e assistir - porém, nunca participar. Também organizava grandes fugas das aulas para a "sessão cultural semanal", que consistiam em idas ao cinema logo depois do almoço entre os amigos do grupo, às vezes com direito à extras: levava suas vagabundinhas com ele e elas, no meio de todos, loucas pelo "mojo" do nosso amigo Harry, tocavam punheta pra ele bem em meio ao público. E o pior é que elas gostavam.

Tenho uma teoria de que o amigo erra assim pois o fruto nunca cai longe da árvore: o pai dele era dono de uma boate de troca de casais (swingue) e outros serviços sexuais (que eu vim a conhecer dois anos depois, em mais uma louca e sexual comemoração de aniversário do garoto Harry) em um lugar nobre da cidade e que ele seria o herdeiro desse negócio. Rolavam entro os amigos o boato de que a mãe dela um dia fora puta e que o pai havia tirado-a da "vida" mas creio que isso era mentira, coisa dos amigos para aborrecer e sacanear.

Enfim, voltando à festa. Harry convidou uma penca de amigos para comemoração de seu aniversário mesmo depois de passado muito tempo da data. Era uma festa cuja temática era sexo e chamava-se "Bacanight" e realmente viria a ser o que prometia: uma noite de bacanal, uma festa do deus Bacus, de bebida, sexo e libertinagem livre, com gente de todos os tipos. A entrada era uma garrafa de bebida sem exigência de qualidade.

A festa ia rolar em uma casa de um amigo, ex colega da época do colégio de Harry. Esse menino era emancipado: era mais velho e havia largado o colégio, terminando os estudos por supletivo pra seguir uma carreira de músico e produtor musical. Era um puta casarão em um bairro tranquilo, com dois andares e uma casa adjacente, onde estava o estúdio musical no lugar da garagem e quartinhos na parte de cima. A festa era próxima à minha casa e a noite estava fria, fui andando, e cheguei lá com duas horas de atraso. Logo na porta encontrei o aniversariante já bêbado pra caralho, sem camisa, lente de contato vermelha nos olhos, alucinado. Ele me viu e gritou, em virtude dos bons tempos: "AMIIIIIIGAAAAAAAA!" Falava arrastado e prolongava as sílabas, extasiado. "Que bom que você veio! Porra, a festa está rolando há um tempão e esta cheia de vagabundas... faltava uma amiga, uma mulher direita." e me guiou até o quintal, perto da piscina aonde estavam sentados os amigos.

Nosso grupo dos "esquisitos" estava todo lá. O Bola, o Bizarro, o Bico... Estavam sentado tirando sarro de uma garota muito feia, que eu só conhecia pela reputação e pelas histórias da pior estirpe. Chamava-se Leula e era realmente muito feia. Gorda, feia de rosto, desarranjada. Me passaram uma garrafa de vinho vagabundo e me mandaram começar a festa. Tomei um trago leve pois o meu fígado andava arriado naquela época e eu não queria exagerar.

Desviei meus olhos da tal Leula, que além de feia era extremamente desinteressante. Reparei no resto dos convidados: diversos góticos, vampirescos e pálidos, vestidos todos de preto, cabeludos, garotas de sainha e meia arrastão, casais se formando e se desenformando para se formarem com novos parceiros, se sarrando em todos os cantos. Muitas vagabundas e muitos bêbados já no início da noite... tudo estava prometendo.

Voltei minha atenção à Leula. Era realmente da pior estirpe mas eu não podia me privcar de olhar: era como um acidente de carro, nojento, feio, deprimente, nauseante mas ainda assim eu não podia desviar os olhos. Era uma puta e estava vestida como uma, de saia curta e camisa apertada, maquiagem brilhante. E, Deus, como era feia. Porém, pelo que me contavam de histórias, dava bastante. Não tinha valor alto: quem quisesse requisitava e comia, sem fila de espera.

Me entristecia por, no fundo, saber que ela era apaixonada pelo Harry e trepava com todos esses caras para causar ciúmes nele, porém, passava desapercebida por ele que a usava por motivos de humor e necessidade sexual. Mas ao mesmo tempo me divertia bastante, rindo tardes inteiras das histórias deprimentes sobre sua vida... Estava quase rindo agora, pra falar a verdade, mas segurei. Lembrei de duas histórias em especial que valem a pena ser contadas, por muito mais que fins ilustrativos:

1° - Em uma tarde qualquer, Harry voltara pra casa do colégio e telefonara pra ela, oferecendo seu sexo por dinheiro. Ela, loucamente apaixonada, concordou em tê-lo como michê naquela tarde. Fora até lá e, depois de uma sessão de amassos, Harry queria consumar seus serviços de prostituto e receber seu pagamento. Ela não concordou, falando que estava menstruada mas ele não quis nem saber: mandou ela se foder, tirou a roupa dela e tacou-a embaixo do chuveiro corrente, chamando-a de imunda. Forrou a cama com jornal e comeu-a como uma cadela. Ela, otária, depois do fim do deprimente serviço, pagou o dinheiro só pra perceber que tinha ficado agora sem uma só moeda pra voltar pra casa. Pediu ao Harry um qualquer pra voltar pra casa e ele, mais uma vez, mandou ela á merda e bateu a porta. Ela teve que ir ao ponto de ônibus e mendigar, se humilhando: sua feiúra não rendera uma só moeda. Ligou então pro Bola e ele veio para o resgate. Ela pedira segredo, mas, como podem ver, esse não foi secreto por muito tempo.

(Soube depois que o Bola também não dava ponto sem nó: comeu a Leula e filmou tudo, fotografou, fez a festa. Depois divulgou todo o material com o nome de "Dawson's Creek" em um programa peer-to-peer, para que o máximo de crianças inocentes baixassem e tivessem suas inocentes memórias marcadas para sempre)

2° - Sem aprender sua lição, Leula foi novamente à casa de Harry para uma tarde de sacanagem. Porém, dessa vez, era uma suruba nas piores condições: Harry estava acompanhado de um amigo disposto a participar e o irmãozinho do dono da casa se recusara a sair de dentro de casa. Subiram então para a casa de máquinas do prédio, no chão sujo mesmo. Ela ajoelhou e falou que não ia dar... Cedeu sob pressão e concordou com o anal. O amigo foi primeiro... E o Harry, impaciente, tentou de tudo e ela não cedeu. De raiva, então, meteu-lhe a piroca na orelha da Leula, e ficou a se roçar. Haha.

Em resumo: Leula era uma puta da pior espécie. Mas a festa original é outra.

Mais amigos chegaram a bacanight, depois de meia hora: Olavo e Nélson, dois companheiros de turma e do grêmio do colégio. Trouxeram um licor e uma vodca e beberam mais com o Harry, agora ainda mais animado. Logo depois o Harry sumiu pra dentro da casa e voltou, sem as calças, e usava uma cueca de elefantinho, com o pênis enfiado no lugar da tromba. Dançou, bêbado, correndo entre os convidados. Deu 50 pilas na minha mãe e disse: "Junta com os amigos, no carro do amigo Gorila, e vai ao mercado, você que tá sóbria, e compra isso de birita. Compra cerveja, tudo, o máximo que der." O amigo Gorila eu nunca tinha visto antes. Ele logo contou que conhecia algum amigo do amigo do Harry e que era de outro estado, Minas ou sei lá onde, e que estava aqui pela birita e na esperança de descolar uma mulher. Era moreno, e grande como um gorila, muito malhado. Seu carro era um Escort 90-e-poucos, todo fodido, sem pedaços dos bancos nem cintos de segurança, com instrumentos musicais na mala e no banco de trás. Nos acomodamos eu e Bico entre caixas de som no banco de trás, Bizarro no carona. O Gorila dirigia loucamente, desnorteado nos sentidos das ruas da cidade.

Fomos ao hipermercado mais próximos e o filho da puta entrou no estacionamento à 100 km/h, cantando pneu. Quase estacionou de cavalo de pau. Compramos cerveja, martini, vodca e conhaque, sem demoras. No caminho de volta, tivemos "pequenos" problemas: a embreagem estava emperrada na terceira marcha e o Gorila foi forçando o motor, fazendo um barulho insuportável. E, perdido novamente em duas grandes ruas movimentadas, Gorila entrou em alta velocidade na contra-mão, entre os carros. Ele, tranquilo, olhou pras nossas caras horrorizadas e piscou o olho, dizendo:

- "Pequenas bandalhas..." Haha. Cretino!

Voltando da festa, Bizarro trouxe pra nós um vinho branco e uma vodca. Eu não quis tomar nenhum dos dois e fiquei a seco e o Bico levou a garrafa de vodca com ele, debaixo do braço. Bizarro secou a garrafa de que ele antes havia divido com uma garota que ele estava tentando embebedar e comer. Era uma tal de Robs, loira e bem-feita, cobiçada, ex-amante do Harry, que estava na festa sem o conhecimento do namorado que odiava o Harry até as profundezas do inferno. Bizarro por fim embebedou-se à toa, mamando da garrafa: não conseguira, no fim da festa, nenhuma sorte no amor, pois a garota ficara bêbada que nem um gambá, numa sessão de pegação com uma lésbica juvenil.

Larguei o Bizarro e entrei na fila do banheiro. Meia hora se passou e nada de desocuparem... Bateram na porta, loucamente. Nada. Aparentemente duas lésbicas estavam colando o velcro lá dentro e não pretendiam sair tão cedo. Burlei as regras do dono da casa e subi para o andar de cima. Pelo que parece, não fui a única pois os quartos do dono da casa, da imrã e o adjacente estavam todos ocupados por casais sexualmente frenéticos, espalhados pelas camas e pelo chão. Fui ao banheiro. Abaixei as calças e quando fui abaixar a calcinha, olhei pro lado pra encontrar um casal quase se engolindo na banheira. Eles me perceberam e falaram mansos: "Relaxa, pode ir, a gente olha pro outro lado."

Recusei a proposta, corando. "Não, não quero atrapalhar vocês..." Gargalhei e desci novamente, segurando o mijo. Agarrei uma cerveja e sentei, e me gritaram. O Bizarro, pelo que parece, havia secado rapidamente uma garrafa de qualquer outra coisa e sentara pra baixar a birita para o estômago na soleira da porta da frente. Agora, a bebida voltara e ele estava vomitando entre as próprias pernas.

- "Faz alguma coisa, anda!", me falaram.
- "Fazer o que, porra? Se ele tivesse cabelo, eu segurava... deixa ele vomitar", eu disse.

E eu e Bico deixamos ele vomitar. Depois, demos um copo de refrigerante pra ele refrescar a boca e pegamos balde e água e lavamos o seu vômito. Ele terminou seu copo e apoiou a cabeça nos joelho e apagou novamente, no seu lugar na soleira da porta.

Enquanto isso, passava-se uma cena hilária poucos metros a frente. A menina Robs, que o Bizarro embebedara mais cedo, sentia agora os mesmos péssimos efeitos do excesso de álcool: estava passando mal e tinha as pernas bambas. Sua pequena amante lésbica a segurava, sussurrando "Mon Amour..." Pelo que parece a maldita mal se segurava na sua própria bebedeira, e só falava francês para sua amante da noite. Esperavam o táxi pra voltar pra casa. Nessa hora eu estava sentada nos degraus da frente, de olho no Bizarro com Olavo e Nélson, bebericando uma gelada. Em poucos minutos, ouvimos um barulho seco, um PAF, de corpo que cai no chão: a Robs havia desmaiada na calçada, dura. A lésbica baixinha se desesperou e gritava, com o corpo da Robs estendido no concreto.

O Bruno, dono da casa, acudiu o corpo desmaiado da garota, dizendo que chamaria a ambulância. Não deixaram pois a mãe dela era médica e temiam que ela chamasse a polícia pois grande parte da festa estava bêbada e era de menor. Colocaram a menina, mole que nem boneca de pano, nas mãos do Olavo. Ele se aproveitou logo da inconsciência dela, e passou a mão pelos seios, barriga, todas as partes.

- "Porra, Olavo, ela tá bêbada!"
- "E o que eu posso fazer? Ela é gostosa..."

Eu e Nélson rimos.

A lésbica histérica, nesse meio tempo, como uma sirene frenética, continuava gritando, chorando copiosamente. Seus gritos eram altos e agudos, e ela soluçava. Daí, quase como um King Kong, o Bizarro se levantou do seu sono sentado e urrou "PORRA! CALA ESSA BOCA, SUA VACA! MINHACABEÇATÁDOEEEEEEEENDO! MERDA... merda!"

A garota se calou, de susto.

Chegou o táxi e a garota colocou a Robs desacordada no banco de trás e foi com ela. Bizarro se acalmou e se levantou, indo com a gente até o mercadinho do posto de gasolina na esquina, pra comer algo. Eu senti o álcool se alojar no fundo do meu estômago mas não comi nada: não tinha dinheiro. Começou a chover forte, e o Bizarro, vermelho e feliz, dançara loucamente, saltitando ao som de música imaginária em plena rua de alto movimento. Sorte dele que era madrugada e que não passavam mais carros.

As luzes estavam borradas e os garotos comeram pra aguentar a bebedeira, pois não havia comida na festa. (Na verdade, mais tarde, descobri que tinha um cento de salgados que o Harry havia escondido pra levar de volta pra casa no dia seguinte. Pão duro, filho de uma puta.) Voltamos para a festa, alguns beberam mais e eu suspendi, atingindo minha cota.

Colocamos o Bizarro pra dentro da casa e ele achou refúgio pra dormir atrás do sofá, entre nerds que jogavam videogame. Fui pra cozinha, onde descobri a tal caixa de salgados e comi, escondendo depois tudo de volta no armário da cozinha. A Leula estava lá com um amigo bicha, fumando, cinzas em todos os lugares. Filei um cigarro. Pessoas entravam e saíam, com as solas molhadas deixando rastros de água, terra e bosta de cachorro (os donos da casa tinham dois cães de guarda quase do meu tamanho, que cagavam montanhas do tamanho de Poodles por toda área do quintal, em volta da piscina) pela cozinha e sala, e pelo tapete.

A irmã do dono da casa voltou e olhou a cena caótica em que seu lar se transformara e se enfureceu: havia gente em todos os lugares, bêbados, casais se comendo, marcas de sapato e manchas de vinho no tapete branco, cheiro de promiscuidade... bitucas de cigarro, copos quebrados, chão servindo de cama e cinzeiro. Era um grande circo do glamour decadente e ela não estava gostando nem um pouco disso.

Aos gritos foi todo mundo expulso do calor da casa e deixado à míngua na área em volta da piscina e da varanda, na chuva. Todos menos o Bizarro, que ficou dormindo atrás do sofá do jeito em que havia sido deixado. A irmã enfurecida até tentou expulsá-lo, mas ficou com medo depois do Bizarro gritar ameaçadoramente.

(Bem cedo da manhã seguinte recebei uma ligação desesperada da mãe do Bizarro procurando pelo filho. Ele não havia falado com a mãe que ia dormir fora e ela agora estava histérica. Acalmei a mãe dele antes que ela ficasse careca de preocupação.)

Debaixo da chuva, mesmo com amigos e álcool eu me recusei a ficar. Recrutei Nélson, Bico e Olavo pra me escoltarem pra casa. Fomos andando, tranquilamente, rindo de vários momentos. Chegaram na porta da minha casa zombando de mim, gritando: "Seu Alberto, seu Alberto, a vagabunda da tua filha tá aqui! Sã e salva."

Filhos da puta. Arruaceiros. Porém, ainda menos filhos da puta que a vaca da irmã do dono da casa. Soube que a festa rolou mesmo na chuva, jogaram uma galera na piscina imunda, beberam e treparam ainda mais.

Filha da puta seja a irmã histérica. Graças à ela, eu acordaria amanhã de ressaca E resfriada.



Capítulo 1

Minha vida até aquele momento tinha sido um completo tédio.

Garota jovem, aluna de colégio particular com notas acima da média, classe média, amigos de mesma idade e mesmo bairro, mesmo estilo de moradia; tudo muito homogêneo e Tijucano. Enfim, éramos todos iguais, nosso pequeno grupo, dentro das nossas próprias disfunções emocionais e maladjustments - até o ano de 1979, digo, 2004. Não que eu tivesse mudado MUITO, havia mudado obviamente, me iniciando mais profundamente nos vícios mundanos do álcool, da nicotina, mas tudo sempre com um pé atrás.

Mas devagar se vai ao longe, sempre me disseram. E devagar eu fui, aproveitando novas influências musicais, convivências com amigos mais soltos (e porque não dizer mais loucos?) e novos lugares. Eu havia feito aniversário e ganho um bocadinho mais de liberdade e as luzes da noite me chamavam, uma gigantesca fome de sair e desbravar a madrugada, ouvir os sons das cidades que nunca dormem.

Enfim, vou ao início. Me lembro de algumas datas interessantes (mas nem tão interessantes) que foram como passos incertos, infantis até essa grande data em Julho. Eu havia saído com amigos para diversões até a madrugada e grandes bebedeiras em lugares normais até que, em um período de dureza monetária total, eu e meu grande amigo Johnny achamos que valia bem mais à pena dar uma festa em casa, um churrasco para os amigos mais próximos, 50 pessoas comendo e bebendo da hora do almoço até a última lata de cerveja acabar.

A idéia foi para frente e recolhemos o dinheiro das entradas, compramos as carnes e uma quantidade considerável de cerveja. O lugar escolhido fora a área de lazer do meu prédio familiar, na Tijuca, por ser um lugar amplo (apesar de feio) e, mais especialmente, por ser barato.

Foi no dia 18. Eu acordei cedo e Johnny veio à minha casa para acender o fogo, arrumar as coisas. O sol não brilhava e logo começou a peneirar uma chuvinha chata e fria, nuvens abafando o sol, o que deixou as paredes sujas e cinzas do meu prédio ainda mais feias e escuras, mais inférteis ¿ a área toda, em si, era mal planejada para festas e melancólicas à sua maneira: na quadra de esportes as crianças não podiam brincar pois, bem no meio, como um grande elefante branco, havia uma imensa caixa d'água, cimentada no chão e, na parte da churrasqueira haviam apenas cadeiras de ferro que já tinham visto dias melhores, uma mesa de sinuca com feltro gasto, uma mesa de ping-pong bamba, sem rede e grandes pilastras ásperas, cuja pintura cinzenta descascava em grandes partes.

Os amigos foram chegando aos poucos, desmotivados pela chuva e, para aquecer e animar a festa, começamos a beber umas batidas fortíssimas de cachaça preparadas na casa do Edson na tarde do dia anterior (mesmo que à muito contragosto da mãe do Ed). Bebemos em vira-vira uma birita horrível, feita com suco de maracujá e cana, apelidada "Narigada". Ficamos logos zonzos e não conseguíamos acender o fogo. Johnny se levantou e foi se aventurar, eu já estava meio alta e chovia cães e gatos, chovia pra cacete mesmo, mas eu estava feliz e estávamos já todos molhados, suados e felizes.

Os convidados chegavam, falantes porém famintos, e nós enchíamos eles de cerveja pois tínhamos 12 twelve-packs contra apenas alguns quilos de carne. Queimamos carne e pão de alho até dizer chega, os convidados já cansados de esperar. Mas não tínhamos nenhum bom senso e bebemos mais e mais, com mais gente chegando.

Até que chegaram duas figurinhas essenciais para que a casa caísse e eu e Johnny afundássemos nossas caras na lama do fiasco: duas meninas, conhecidas do John de qualquer parte, cujos nomes agora eu nem consigo mais recordar. Elas chegaram, tímidas, perguntando logo aonde estava a cerveja. Uma delas era uma gorda bem feia e bem gorda e tinha uma garrafa de Vodca vagabunda debaixo do braço, a outra era magra e de cabelos loiros ensebados e desgrenhados, camisa de flanela, como um garotinho grunge. Não queriam comer mesmo, queriam encher a cara da pior maneira possível e nós concordamos pois queríamos beber à beça também. Abrimos a vodca e fomos servindo, à nossa maneira: Johnny abordava os convidados, fazia eles abrirem a boca e enchia a boca deles com uma boa dose de vodca, sempre rindo muito, porque já estava bem bêbado e a essa altura do campeonato já não tinha mais comida.

E a garota gorda acompanhava, pois cada vez que Johnny "servia" uma dose, ele bebia uma e dava uma à dona da garrafa. Logo logo ele estava bem mais doido do que eu e nós colocamos música mais alto e dançamos com espetos nas mão e rimos, suados e suados, John muito vermelho. As dupla de garotas feias saiu com o fim da garrafa de vodca para ir ao boteco ao lado e descer uma dose de cachaça cada, pra aquecer do frio.

Eu servi o que tinha de comida restante ainda, Johnny muito ocupado tentando curar o enjôo da bebedeira e puxando todo mundo pra um bate papo bêbado-emocional. Uma namoradinha dele na época, uma morena bonita de olhos verdes ficou o tempo todo sentada, olhos marejados, balançando a cabeça em negação. Quando as meninas feias voltaram, estavam muito muito loucas das idéias e resolveram dar uns pegas. Johnny boy pegou logo a mais magra, pra desgosto da moreninha, que agora segurava os joelhos e chorava no ombro de um amigo.

Outro amigo nosso, Tim, tentou se encarregar da gordinha. Ele que havia chegado pouco depois de nós tinha passado a festa toda bebendo e, até pouco tempo, dormia sentado numa cadeira, encostado em uma das pilastras. Ele agora acordara revigorado e tinha uma missão: agarrar aquela gordinha nem que fosse forçada. A menina resistiu, resistiu e gritou, todo mundo rindo de tudo (menos a namoradinha morena, que não podia acreditar na cena), até que John veio "acudir": se bem que a ajuda de Johnny não foi muito válida - se aproveitou do momento e beijou logo a gorda, deixando nosso pobre amigo Tim enfurecido.

(O Tim, que bem tem esse apelido por ser um negro gordinho e engraçado, era meio deprimido e solteiro, com dificuldades para relacionamentos e uma tendência ao platonismo e alcoolismo.)

Enfim, o pobre do Tim não podia fazer nada. Só gritava, injuriado, "Johnny, seu filho da puta! FILHO DA PUTA! Desgraçado. Furou meu olho.... FUROU MEU OLHO! E pela segunda vez! Pela segunda vez pega a minha mulher!". Esbravejou e cambaleou, bêbado demais pra brigar. Depois, num momento hilário, sentou do meu lado embriagado e me disse "Porra, cara, eu tava apaixonado..."

(Depois ele me contou a história de que sempre fora apaixonado por essa moreninha namorada do Johnny. Puta merda, deve ter sido difícil pra ele perder duas mulheres pro Johnny no mesmo dia.)

Algum tempo passou e eu só sei que meus antigos amigos, da época do colégio, por serem puritanos ainda estavam sóbrios e desaprovavam tudo que estava acontecendo. Todos os outros estavam bêbados de cair. Literalmente. Não faltou muito tempo e as garotas feias deram sinais de enjôo ¿ a magrinha foi vomitar no banheiro, fazendo uma grande bagunça, e a gorda estava muito grogue sentada no banco de cimento. João caiu literalmente. Nosso amigão, Filipe Bizarro, ficara de babá dele.

(Bizarro possui esse apelido por ser grandalhão e forte, um tipo 2x2 mesmo, e ter cabelo cortado em moicano, grandes costeletas, usar coturno e, apesar de ser doce e gentil, ter uma cara de nazista mal.)

O que contribuía mais para a hilaridade da situação era o fato do Johnny se debruçar no Bizarro, agarrando-o pelo pescoço, num meio-abraço, meio-apoio, repetindo seu mantra bêbado favorito: "Porra, cara, você é meu amigão. Meu amigo mesmo..." e batia no peito, em cima do coração, dizendo: "Você mora aqui, cara. Mora mesmo..."

Enquanto isso, a garota gorda caiu dura. Branca, gelada, entre uma poça enorme e nojenta de vômito, ela estava lá, seus olhos virando. O Tim gritava em desespero "eu também quero vomitar..." e se debruçava na lata de lixo. Me pegou de lado e disse: "Flavs, enfia o dedo na minha garganta." Puta merda... Enfiei o dedo na garganta dele e ele vomitou, retomando seu lugar na cadeira próxima à pilastra e voltando a dormir.

E a garota gorda agora continuava dura e gelada, meio morta, sendo acudida pela feia magrela. Mas nada adiantava. Na falta de sais, sentamos ela (num grande esforço conjunto, porque ela era bem pesada) e fizemos ela cheirar vinagre e tomar refrigerante, mas ela vomitava tudo nos próprios pés. Eu, na minha bebedeira desesperada, matei mais uma dose de qualquer coisa pra acalmar os nervos e comecei a chorar, copiosamente. Johnny e Bizarro me carregaram pro banheiro e o John, mais bêbado que eu, me sentou na privada, dizendo "Senta, senta, calma.... Você tá muito bêbada. Bêbada demais!"

Eu sentei e espremi os olhos. O banheiro todo era um grande mosaico de vômito, o cheiro pungente de ácido estomacal queimando o nariz, tudo estava um nojo e ali tive minha primeira noção de submundo. Johnny sentou no chão e carregou o Bizarro com ele pra baixo, em meio ao chão melado. Bizarro ria da situação ridícula por ser o mais sóbrio dentro do cubículo e Johnny só repetia "Flavs, Flavs, eu estraguei tudo. Porra, me desculpa, eu estraguei tudo. Agora fodeu mesmo, agora já era." e repetia seu manta "Você é minha amiga, porra." e batia no peito "Você mora aqui dentro." E eu chorei mais e mais e falei "Você estragou tudo. Não vale nada!" e esperneava, mandava loucamente ligarem pro meu pai, e repetia que eu não prestava, "Chamem meu pai! Chamem meu pai... não... não chamem! Ele não merece esse desgosto!"

E saí do banheiro. A garota gorda ia de mal a pior enquanto isso. Fiquei com medo de ela morrer e ia chamar a ambulância mas me impediram, me deram refrigerante e ombro amigo, me consolaram. Eu parei de chorar. Charles, Bizarro e Johnny a levantaram e Bizarro carregou a garota, desacordada, num mata-leão até o banheiro. Lá entupimos a pia de papel higiênico e resolvemos lavar o rosto dela com água gelada - agora éramos 5 no cubículo submúndico vomitado - mas o Johnny, sádico, disse que ela tinha que aprender a lição e enfiou a cabeça da garota debaixo d'água. A menina acordou debaixo d'água, semi afogada e tiraram a cara dela da água pelo cabelos. Seguirem três, quatro tapas na cara.

"Acorda, porra!" e eu pensando, 'coitada, que coisa horrível' e a rotina de tortura afogamento-tapa se repetiu mais duas vezes, sendo que da última vez eu mesmo a esbofeteei. Tive essa necessidade de descontar nela a minha raiva e frustração, coitada, não que ela merece (ou talvez merecesse sim). A amiga magra veio acudir e disse que era pra jogarmos ela no táxi que ela a levaria pra casa, só necessitava mudar de camisa porque a que usava agora estava molhada e vomitada (era meio que tudo, até os cabelos) e a mãe dela não podia saber. A PORRA DA MÃE NÃO PODIA SABER porque as garotas tinhas só 14 ANOS. Puta que pariu, se eu tivesse chamado a ambulância, íamos todos presos.

Johnny tirou o suéter que usava e nós tiramos a camisa da gordinha, que gritava "Não, porra..." choramingava "Vocês vão ver minha cueca! Querem me despir pra ver minha cueca!". E Bizarro gritava "Caralho, quem diabos vai querer ver sua cueca?!" Era verdade. Porque diabos ela estava de cueca eu também não sei. Trocamos as roupas dela e sentamos ela no chão, enfiando refrigerante e farofa nela. Depois paramos o táxi, na calçada e colocamos ela lá dentro. Chovia miseravelmente ainda e ficamos ensopados, mas o pior problema agora ia dormindo um sono bêbado no banco de trás, pelo menos.

Voltei pro churrasco pra perceber que os convidados mais sensíveis tinham ficado horrorizados e ido embora, mais ou menos 2/3 da festa. Os gatos pingados mais fortes beberam até a madrugada, acabando com as últimas lats de cerveja.

Rafael, um amigo do João que havia ficado sóbrio a festa toda agora estava bêbado e comia cambaleante, sentado numa mesa. Eu, Johnny, Rafael, Tim e Bizarro empilhamos as latas e fizemos um castelinho de latas, um monumento à bebedeira colossal e as presepadas do dia. O Tim dormiu de novo e sobrou Bizarro pra levar o Rafael pro ponto, para ele ir pra casa.

Tim pegou uma garrafa de vodca e uma de cana que haviam sobrado dos drinks e botou na mochila pra beber em casa, na sua solidão amorosa e em qualquer festa. Sobramos eu e Johnny para a limpeza da poça de vômito da gorda, catar copos e pratos e todo tipo de sujeira de um churrasco e limpar o banheiro que agora tinha vômito do chão ao teto, como um mosaico estomacal nas paredes de ladrilho. Esfregão, água sanitária, detergente. Deixei o Johnny limpar a maior parte por culpá-lo pelo semi-coma da gorda mas fiz a minha parte e deixamos tudo nos devidos conformes.

Voltei pra casa inchada de choro e álcool para um banho merecido. Minha mãe perguntou o que havia acontecido e eu disse "Nada. Só estou cansada. Está tudo bem." E, no final das contas, estava mesmo tudo bem pois estávamos vivos (não necessariamente com saúde, mas vivos) e fora da cadeia. Está tudo bem se acaba bem.

(Tudo bem para todos nós menos para o Rafael, que havia sido deixado no ponto de ônibus bêbado e sozinho e, em vez de voltar pra casa, dormira até umas boas três da manhã sentado no banco, perdendo vários ônibus de volta.)



Introdução.

Parece pretensão iniciar um relato de vivência nos caminhos sinuosos e obscuros do submundo quando apenas passeei pelas suas margens, sem nunca realmente ter me aventurado pelos seus becos imundos. Tive, obviamente, minha pequena dose de situações de glamour decadente, beat bêbado e suado por lugares baixos, entre pessoas de personalidade e aparência duvidosas (e gêneros sexuais dúbios), mas me proponho a escrever sobre tudo que vi e senti no meu on the road pessoal - minhas noites e dias de carpe diem e bad karma ao longo desses anos de 2004, 2005 e 2006.

1979, porém, ganha um espaço em especial no meu coração por ser um ano que eu tenho intensa simpatia por, nada demasiadamente especial ou desespecial.

Então, para o alto e avante, escrevendo e distorcendo histórias engraçadas de auto-destruição, diversão e alcoolismo.